Roteiros – Snowy Mountains

A viagem que fizemos para Snowy Mountains bem que poderia ser um roteiro de filme. Seis brasileiros com seus 20 e poucos anos (excluindo esse que vos escreve que já beira os 30), indo para neve pela primeira vez. Tudo foi tão tranquilo que esse filme com certeza estaria entre aqueles clássicos da sessão da tarde, cinema água com açúcar, o bem sempre vencendo o mal e com a certeza de um final feliz.

Já que serei tão óbvio em vez de roteiro de filme, melhor falar de um roteiro de viagem para Snowy Mountains, voltado para brasileiros sem muita familiaridade com esportes de neve.

Localizada no extremo sul do estado de New South Wales, o conjunto de montanhas denominado Snowy Moutains abrange dois parques nacionais, o Kosciuszko National Park e o Tallaganda National Park and State Conservation Area, além de duas dezenas de cidades e diversas estações de ski. Um dos destinos mais procurados durante o inverno australiano, algo muito parecido com o que acontece em Campos do Jordão, Petrópolis, Garanhuns e tantas outras cidades montanhosas pelo Brasil.

Saímos de Sydney às 19h, muito mais tarde do que planejávamos, a ideia era dirigir o menor tempo possível a noite, já que sabíamos do alto índice de acidentes ocasionados por animais na pista. Infelizmente, confirmamos o que os números diziam: centenas de cangurus, wombats e pássaros mortos na beira da estrada.

Chegamos a 1 da madrugada no Bed and Breakfast onde nos hospedaríamos.  Ansiosos, nada melhor do que uma boa noite de sono para o tempo passar mais rápido. O horário do café da manhã, das 7h às 8h, deu a noção de como deveria ser nossa rotina, dormir cedo e madrugar todos os dias, a combinação da confortável cama com as mais de 6 horas de estrada, resultou no cenário perfeito para “perdemos” a hora.

Já eram passadas 10 horas quando partimos para a cidade de Adaminaby, onde encontraríamos nossa amiga Luiza, frequentadora assídua da região. Ela nos indicou uma loja para alugarmos os equipamentos de ski e snowboarding e falou um pouco sobre as diferentes estações de esqui da região. Optamos por Selwyn, lugar voltado para família e para novatos como nós. Todo esse processo nos tomou a manhã inteira, estávamos lá ha quase doze horas e não tínhamos visto neve! Desesperador não é?

Com os equipamentos alugados finalmente partimos para a estação de esqui, estrada com paisagens lindas, mais ainda quando as montanhas cobertas de neve começaram aparecer no horizonte. A euforia começou a tomar conta de nós, ficando maior quanto mais nos aproximávamos e de repente o gramado verde deu lugar a uma manta branca, as árvores ficaram nuas. O que era euforia transformou-se em loucura, gritos surgiram de todos os lados, sonorizando um sentimento que ficara recluso por tantos anos, paramos na oportunidade e voltamos a ser crianças. Guerra de neve à beira da estrada.

Chegamos na estação de esqui no começo da tarde, compramos apenas o ticket para metade do dia que incluía aula para iniciantes e fomos ter nossa primeira experiência esquiando. Os primeiros momentos na neve, seja com esqui ou snowboard, sem dúvida são os mais hilários. Incontáveis quedas, trombadas com outras pessoas, strike em um grupo de crianças, que além das risadas geraram roxos nada divertidos.

A partir do segundo dia, nossa rotina foi religiosamente a mesma:

  • Voltar da estação de esqui, chegar em casa, tomar banho, fazer o jantar, tomar umas cervejinhas e dormir.
  • Madrugar no dia seguinte, tomar o café da mãe do B&B: torradas,ovos, bacon e sucos.
  • Ir para alguma estação de esqui.
  • Esquiar durante o dia inteiro, voltar para casa…

Acho que começo a deixar bem claro o quão ficamos aficionados pela brincadeira.

No segundo dia fomos para Perisher , maior estação de esqui da Austrália, composta por sete montanhas e quatro vilas. Ficamos o tempo em Smiggin, com pistas mais compatíveis com o nosso nível, um degrau acima das Selwyn. Foi perfeito para sentirmos o nosso nível melhorar, com tombos cada vez mais esporádicos e as risadas substituídas por emoção(adrenalina pura). Chegamos as 9 da manhã saímos às 5 horas da tarde, todo esse tempo sem comer ou beber nada.

No dia seguinte partimos para montanhas que a imensa maioria dos nossos amigos sugeriram, mas que nossa performance ainda não permitia. Thredbo Ski Resort, estação localizada no monte Kosciuszko, ponto mais alto da Austrália. Idealizada em 1956, por Tony Sponar, austríaco radicado na região. Todo complexo possui 14 lifts ativos,  mais de 50 pistas, 480 hectares, isso sem falar de uma vila charmosíssima de frente para montanha, com seus pouco mais de 500 habitantes, mas que anualmente recebe mais de 700.000 visitantes.

Lá sentimos o verdadeiro prazer dos esportes de neve, trocamos descidas que duravam no máximo 1 minuto por pistas longas, caminhos muitas vezes sinuosos no meio da vegetação, nos arriscamos mais, testamos nossos limites. Como resultado, tivemos alguns tombos perigosos e experimentamos de perto os riscos da neve, porém nada nos aconteceu e não entramos para as estatísticas das centenas de acidentes registrados a cada temporada.

Quarto dia de Snowy Mountains e ninguém sequer cogitou ir pra outra estação, era consenso que Thredbo era o lugar perfeito para nosso último dia de neve. Dessa vez o grupo dividiu-se, alguns quiseram esquiar até o último segundo possível e outros foram conhecer outras atrações da intimista vila localizada no Vale Crackenback, aos pés do Monte Kosciuszko . Especialmente para mim foi uma decisão difícil, escolher entre o esporte mais divertido do mundo e as fotos, mas eu precisava dedicar um tempo para aquelas novas paisagens.

Neste dia resolvemos mudar o figurino, tiramos as pranchas e os esquis e colocamos as botas na neve. O que ocorre: tudo gira em torno do esportes e tivemos uma certa dificuldade em encontrar algo diferente para fazer. Tentamos fazer Bobsled, mas estava fechado, seguimos para o centro de informações e perguntamos sobre caminhadas; descobrimos que elas não são permitidas no inverno. Após muito insistir conseguimos comprar um ticket para usarmos dois lifts como pedestres.

Subimos o lift Kosciuszko Express até o Eagles Nest, restaurante mais alto da Austrália, 15 minutos de pura contemplação misturada com um frio na barriga, a 1932 metros de altura foi mais fácil de entender o emaranhado de pistas, tendo uma melhor noção da grandiosidade da estação contrastando com a singela vila aos seus pés. Para celebrar aquele momento, nada melhor do que um espumante seguido de um divino Apfelstrudel. Contrastando com todo esse glamour e já sob o efeito impressionantemente rápido do álcool, rompemos o cessar fogo e fizemos mais uma divertidíssima guerra de neve.


De volta a base da montanha, fomos “turistar”. Lembranças para os amigos, toucas para esquentar as orelhas castigadas pelo gélido vento e uma passada no Thredbo Alpine Hotel, em uma festa da Veuve Clicquot para brindar o dia perfeito.

Para o último dia de viagem tínhamos um plano um pouco diferente. Recebemos a preciosa informação sobre um local repleto de cavernas chamado Yarrangobilly, localizado muito próximo da nossa rota de volta para Sydney. A mudança do clima era notável, caminho inverso da nossa ida para Selwyn e já trazendo nostalgia para todos. A cada quilometro, a neve foi ficando cada vez mais escassa, as árvores voltaram a ter folhas, as vegetação voltou a ter cor e a estrada nos reservou uma surpresa quase tão fantástica quanto a neve. Cangurus, dessa vez, vivos, pulando na beira da estrada. Pode ser difícil de acreditar, mas após 6 meses essa foi a primeira vez que vi(eu especificamente) cangurus.

Chegamos ao centro de informações turísticas de Yarrangobilly Caves.  Ficou evidente que aquele não era um destino usual durante o inverno. Perfeito, o parque era praticamente nosso.  Fizemos uma visita guiada à caverna Jillabenan, acompanhados pela simpática Gilly, guia apaixonada pelo lugar que nos apresentava, seus olhos brilhavam contando a história do local.  Dentro da caverna, devidamente catalogada e trancada, para evitar a depredação do homem, tivemos contato com obras de arte feitas lentamente pela natureza. Antes de cada explicação, Gilly acendia uma “luz”, que iluminava o foco de suas palavras, passados alguns minutos, um espetáculo de luzes apresentou-se para nós. Agora, extraordinário mesmo foi o momento em que todas as luzes foram apagadas e Gilly continuou seu relato, sussurando detalhes sobre a formação geológica da caverna. Foi transe coletivo, uma explosão dos sentidos. Magnífico!

Infelizmente não tivemos mais tempo para explorar as outras cavernas do parque, porém a rota de retorno continuava promissora, por meio da Snowy Mountains Highway, passando por cidades inundadas durante a construção da Hidroelétrica de mesmo, as pequenas porém graciosas Tamut e Talbingo. Ao cair de tarde nessa estrada lindíssima geradora de belas paisagens e com muitos cangurus pelo caminho, paramos o carro e por lá ficamos observando…

­

Final perfeito para aquele roteiro de filme da sessão da tarde, feliz. Melhor dizendo, um belo encerramento desse roteiro de viagem.

Mail