Futebol, mandingas e fuso horário…

Pergunte para um brasileiro o que ele mais sente falta morando na Austrália. Família, amigos e o tempero brasileiro são respostas certas, mas com certeza muitos responderiam futebol. Acompanhar o time de coração não é tarefa das mais fáceis. O esporte mais popular do mundo, pelos lados de cá, cai drasticamente do seu pedestal sendo ultrapassado por Rugby, Surfe e Cricket. Somado a falta de popularidade, temos o fuso horário, amigo inseparável. Os horários não batem, quando meu Corinthians entra em campo ou estou no trabalho, ou, então, dormindo. A única maneira de conseguir ver os jogos é buscar sites que transmitam o jogo, de maneira ilegal e normalmente com uma qualidade sofrível, ou então ouvir em alguma rádio brasileira que transmita pela internet.

Na Libertadores da América, os jogos aconteciam apenas no meio da semana, às 21:50 do horário de Brasília e às 10:50 do horário daqui, bem no meio do expediente. Entre a primeira fase e as quartas de final, não teve jeito, eu sintonizava o meu celular na Rádio Bandeirantes e ouvia o lendário José Silvério narrando os jogos da maneira cardíaca que todos os radialistas fazem. Até o primeiro jogo das quartas-de-final eu segui essa rotina, trabalhando e quase enfartando toda vez que o tom de voz subia.

Visando evitar um enfarte antes da hora, resolvi que a partir da semifinal eu assistiria todos os jogos. Joguei um xaveco furado no meu chefe, falando de toda a paixão que tinha pelo Corinthians e que, ele torcedor fanático do West Ham que é, deveria entender e me liberar do trabalho nas quintas-feiras:

-Pô chefe preciso estar 100% focado na partida, vendo os lances , sofrendo, gritando gol. Você entende né?

Pois é, colou.

Quinta-feira, acordei e comecei  me preparar para a primeira partida da semifinal contra o Santos na Vila Belmiro, terreno adversário que tanto impõe respeito. Estava nervoso, apesar de agnóstico comecei a fazer as mandigas que irracionalmente acreditava ajudar o Corinthians:

Camisa da sorte vestida, o árbitro apita, começa o jogo, faço o sinal da cruz, beijo tatuagem do Corinthians no meu ombro, outra bitoca na minha camisa e começo a sofrer.

Tatuagem da sorte!

Logo nos primeiros minutos, me lembrei de um fato importantíssimo dentro dessa minha rotina mandigueira: durante todos os outros jogos da competição eu usei o meu uniforme de trabalho. Não poderia correr o risco de atrapalhar meu Timão com essa mudança inesperada e assim coloquei camiseta, boné e bermuda do Subway e vi o Corinthians abrir o placar aos 27 do primeiro tempo e ganhar o jogo.  Gritos, cantos e a comprovação de que as mandigas fizeram efeito.

Para o jogo da volta repeti o roteiro da superstição e resultado não poderia ser outro: passamos pelo Santos e alcançamos a final inédita. O problema seria o próximo adversário, Boca Juniors, o maior carrasco brasileiro na história do torneio e a lembrança da primeira Libertadores da minha vida, em 1991, quando os argentinos trucidaram o raçudo, porém limitado time campeão brasileiro de 1990.

No primeiro jogo da final o roteiro foi perfeito e consegui repetir todo o ritual das partidas anteriores e saímos de La Bombonera com um heróico 1×1. Decidiríamos o peleja em casa. A dor de não ir ao Pacaembu era do tamanho do mundo, apenas menor que a gastrite nervosa que eu sabia que teria durante a semana de espera até a finalíssima.

Quando imaginava que não havia possibilidade de ficar mais nervoso, vi o destino me pregar uma peça.

No dia anterior recebi a noticia de que teríamos dois caras consertando o encanamento do meu apartamento. Bem na hora do jogo! Resultado: não estaria sozinho, uma mudança inadmissível para o supersticioso eventual que vos escreve.  Além dos encanadores descobri que minha namorada, uma são paulina doente, também me faria companhia. ZICA NA CERTA.

Pensei em tudo: ir para casa de um amigo, levar meu computador para praia ou apenas escutar o jogo, mas em um processo de alto convencimento tentei acreditar que o que importava era o local que assistiria à partida, ou seja, a minha casa era mais importante que as companhias. Tudo se encaminhava para o inicio da finalíssima, quando o link para a partida caiu e quando voltou o jogo já tinha começado e eu não tinha feito o sinal da cruz, muito menos beijado os símbolos no meu ombro e na minha camisa. A essa altura já esperava pelo pior e com tudo ao contrário do planejado, chutei o balde das crendices e não coloquei o uniforme do meu trabalho, usei apenas o manto sagrado alvinegro.

Final do primeiro tempo, jogo empatado e o roteiro, até então torto, não saia da minha cabeça:

Será que arruinei com a possibilidade do título?

Começa o segundo tempo e os gringos em casa olhavam assustados para mim, que aquela altura gritava com a tela do computador, entoava cânticos como se estivesse no estádio e andava de um lado para o outro, gastando o já ancião piso de madeira de casa.  Gol do Corinthians e meus berros foram ouvidos por toda a vizinhança. Segundo gol e a certeza do titulo só fez a alegria aumentar e com o fim do jogo o grito de é campeão foi repetido centenas de vezes e de maneira didática soltei também um: WE ARE THE CHAMPIONS! Evitando que a policia fosse chamada para averiguar a gritaria.

CAMPEÃO!!! Aqui tem um bando de loucos...

Nessa mistura de euforia pelo tão sonhado título e tristeza pela minha ausência, eu comecei a ver o maior adversário ser contratado para meu time: lembra-se do inseparável Fuso Horário?

O jogo terminou no começo da tarde daqui e assim ganhei 12 horas a mais para comemorar a vitória. Uma verdadeira maratona alcoólica repleta de brindes, festa e cantoria. No dia seguinte com a minha cabeça parecendo mais a de um boneco de Olinda, lembrei da minha mais nova contratação e decidi aproveitar de suas habilidades e decidi ir para o Mundial de Clubes, aqui desse lado do globo. Apesar de perder esse momento histórico em São Paulo ganhei a oportunidade de acompanhar meu time em terras nipônicas.

Japão, aí vou eu!

Comemoração!!


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